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Serra: "os evangélicos têm um papel importante porque os fiéis leem a Bíblia; isso fomenta a leitura, aumenta a cultura"

As sete vidas de Serra por um mandato

Por Raymundo Costa | De São Paulo

A carreira política do tucano José Serra já foi dada por encerrada algumas vezes. Uma delas em 2002, quando perdeu a eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva, embora tenha disputado com o apoio do governo federal. Mas foi a derrota para Dilma Rousseff, em 2010, que levou seus adversários a decretar que o PSDB estava finalmente livre de Serra. O tucano terminou a campanha brigado com o partido e abandonado pelos companheiros. No discurso em que reconheceu a derrota, no entanto, avisou: não se tratava de uma despedida, mas apenas de um "até logo".

Ganhou quem acreditou no candidato derrotado de 2010. No domingo, Serra é o principal nome dos tucano nas eleições municipais. Ironicamente, sua sorte pode ser decisiva para o futuro do PSDB. Se perder, principalmente se for para o PT, o partido ficará sem nenhum prefeito nas dez maiores cidades do país, o que lhe pode ser fatal na sucessão de 2014.

É surpreendente que na reta final de uma campanha cuidadosamente calculada o tucano tenha dado a entender que ainda pode ter em seus planos o Palácio do Planalto. Isso, justamente num momento em que a caravela do PSDB, depois de dez anos, atravessa uma área de rara calmaria.

Hoje, o candidato natural do PSDB a presidente é o mineiro Aécio Neves. Ele foi um dos primeiros a atacar violentamente o mensalão, o esquema de compra de votos que o governo Lula montou em seu primeiro mandato, como já entendeu o Supremo Tribunal Federal (STF).

Aécio, no momento, é o nome que une os caciques do PSDB, a começar do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Sérgio Guerra, presidente nacional do partido, Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, todos foram na jugular do PT para ajudar Serra e aterrorizar os petistas, ao falar do julgamento do mensalão, segundo reconhece o Supremo um esquema de corrupção, compra de votos e lavagem de dinheiro por trás do qual está principalmente o PT de São Paulo, os principais adversários de José Serra na eleição,

É claro, vendo Serra em desvantagem nas pesquisas, um tucano mais malicioso poderia se aproveitar da ocasião para dizer que foi solidário na dificuldade. Difícil, porque as pesquisas revelam que a eleição paulista será muito disputada, apesar da diferença a maior em favor de Celso Russomano (PRB). O próprio José Serra tem elogiado o comportamento dos companheiros na campanha eleitoral que se encerra neste domingo. A interlocutores, diz que Geraldo Alckmin se empenhou a fundo, principalmente na reta final da campanha, e que o prefeito Gilberto Kassab (PSD) trabalhou intensamente nos bastidores.

A intervenção de Serra surpreendeu. No domingo à tarde, falou claro que se sente ainda fisicamente apto a disputar qualquer cargo eletivo. "Como o sr. viu a declaração do ex-presidente Lula, de que o senhor deveria se aposentar"?, questionou um jornalista.

Serra deu uma gargalhada e respondeu de forma surpreendentemente bem humorada para um candidato cuja rejeição é debitada, em grande medida, ao fato de ter deixado a Prefeitura de São Paulo, em 2006, para concorrer ao governo do Estado: "Imagina, eu não vou responder isso, seria covardia", disse.

Muitos dos jornalistas não entenderam. A surpresa dos jornalistas foi logo identificada pela assessoria de Serra, que saiu do carro onde já estava acomodado, uma atitude rara nas campanhas de Serra, voltou para conversar com os repórteres.

"O Lula já está aposentado há muito tempo", disse. "Está aflito com isso. Ele já deu alguma entrevista para explicar isso? Não. Então ele se especializa em falar mal dos outros", afirmou o tucano.

Outro repórter ainda insistiu: "Quando o senhor fala em covardia, se refere a covardia intelectual"? É provável que a resposta de Serra tenha deixado os tucanos ainda mais confusos. Depois de uma elucubração sobre os golpes contra Getúlio Vargas e João Goulart, feitos pela direita com as armas dos militares, Serra deu a entrevista por encerrada com a seguinte declaração: "Lula sabe perfeitamente que eu tenho energia física e intelectual para enfrentar qualquer desafio na vida pública".

Serra, na longa carreira política construída desde 1964, quando presidiu a União Nacional dos Estudantes, passando pelo PMDB de Franco Montoro, do qual foi secretário do Planejamento, até se tornar um dos criadores do PSDB, forjou nesse período a fama de um político bem preparado e de bom administrador.

Mas ao mesmo tempo foi criando adversários dentro do próprio PSDB e de seu aliado preferencial à época, o PFL, que não o queriam como presidente da República. Implicante, ganhou a fama de desagregador. Fama que chegou ao auge no governo Fernando Henrique Cardoso, quando se impôs como o candidato do PSDB.

É provável que muito do que se diga sobre Serra seja verdadeiro, mas há muita lenda criada entre os próprios tucanos.

Dizia-se que ele estava brigado, em 2010, com Geraldo Alckmin- quando o ex-disputou a prefeitura e não teve o apoio explícito do governador. Mas Alckmin frequentemente ia ao Palácio dos Bandeirantes para conversar. O mesmo ocorre agora com Aécio. O tucano mineiro reconhece as dificuldades na disputa entre os dois líderes, mas diz que tem conversado bem com Serra, ultimamente.

A pecha de desagregador "pegou" em Serra, mas ele e o alto escalão tucanos hoje limitam a três aspectos as dificuldades do candidato em São Paulo: rejeição alta (tanto dele quanto a do prefeito Gilberto Kassab), o engajamento da Igreja Universal do Reino Deus (IURD) na campanha de Russomano e - especialmente - o fato de ele ter deixado a prefeitura em 2008, quando havia prometido cumprir o mandato até o fim.

Para Serra, governar o Estado era quase uma extensão da prefeitura, onde ficou seu vice e amigo Gilberto Kassab. O discurso não foi problema em 2006, quando ele foi eleito governador, mas foi importante na eleição de 2010 e está influindo em seu desempenho atual nas pesquisas.

Desconstruir a imagem de que Serra deixaria a prefeitura para novamente concorrer a Presidência da República talvez tenha sido o maior desafio do jornalista Luiz Gonzales, o marqueteiro da campanha. Conseguiu, pelo menos em parte. Uma coisa em relação a Gonzalez é certo: será atribuída a ele grande parte da responsabilidade pela vitória ou derrota do candidato.

Gonzales nunca foi de ouvir os conselhos dos políticos. Isso ocorreu em 2010 e deixou furiosa toda a cúpula tucana. Neste ano, os poderes de Agonal na campanha são ainda maiores. Ele não se limita ao programa de televisão. O jornalista tem controle direto sobre todos os setores de comunicação da campanha, inclusive da internet.

Se for eleito, Serra já tem as prioridades de seu governo. A principal delas é a renegociação da dívida da maior cidade do país. A dívida da São Paulo com a União era de R$ 10,5 bilhões em 2000. Nesse período a cidade já pagou R$ 16 bilhões, mas continua devendo R$ 50 bilhões, graças aos juros aplicados, de 9% ao ano. Isso quando a taxa Selic já está na faixa dos 7%. Se nada for feito, até 2030 o município terá pago R$ 170 bilhões, mas ainda estará devendo R$ 215 bilhões. "É impagável e impede os novos investimentos", diz José Serra. É a maior dívida municipal do país. Se fosse calculada pelas atuais taxas de juros seriam pelo menos R$ 22 bilhões a mais no caixa estadual, o suficiente para construir um bom número de quilômetros do metrô.

Problema crucial na eleição de 2010, a religião passou de maneira mais equilibrada pela campanha. O tucano insiste que o primeiro a se declarar contra o aborto, entre os candidatos, foi Marina Silva. Ele apenas cobrou que Dilma fosse coerente com o que dizia antes sobre o assunto, o que não difere nada do que pensa o tucano, segundo interlocutores de ambos. "Não tem nada de religioso (na disputa eleitoral", diz Serra, quando questionado especialmente sobre o apoio da Igreja Universal do Reino de Deus a Russomano. Evita o assunto, mas tem cálculos que a IURD teria 53 mil militantes na campanha do PRB. A estratégia do tucano para ter o voto evangélico é quebrar a unidade das igrejas. Ele se acha "satanizado" apenas pela IURD.

"Os evangélicos têm um papel importante, no Brasil, na leitura porque todos os seus fiéis leem a Bíblia. É uma atividade editorial muito intensa, Isso fomenta a leitura, aumenta a cultura e o preparo da população. Esse é um aspecto em geral pouco citado, mas eu valorizo bastante". Eleito, quer também fazer parcerias com igrejas evangélicas numa política de tratamento de drogados.

A campanha em São Paulo começou sob o signo da renovação. O alvo era Serra: àquela altura, início da campanha, o tucano estava disparado na frente, nas pesquisas. Serra está com 70 anos de idade, se exercita diariamente, e parece em boa forma física. Lula tem 57 anos, recupera-se de um câncer, mas se empenhou profundamente na campanha. O maior colégio eleitoral do país, com 8,6 milhões de eleitores, pode até levar para a prefeitura um dos jovens em disputa. Mas os métodos da campanha, em que PT e PSDB continuam a se engalfinhar, em nada foram renovados em relação à eleições passadas. (Colaborou Fernando Taquari)

http://www.valor.com.br/eleicoes2012/2853140/sete-vidas-de-serra-por-um-mandato


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